Depoimento de médico chama a atenção do presidente da Câmara, que enviou ofícios a secretarias de Educação
Depoimento de médico chama a atenção do presidente da Câmara, que enviou ofícios a secretarias de Educação

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Gênio adverte sobre aparelhos de som em salas de aula

Depoimento de médico chama a atenção do presidente da Câmara, que enviou ofícios a secretarias de Educação
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O presidente da Câmara Municipal de Jataí, Gênio Eurípedes, enviou ofícios às secretarias Municipal e Estadual de Educação (com cópia para as escolas jataienses) advertindo sobre o possível uso indisciplinado de aparelhos eletrônicos por parte dos alunos das escolas do município.

“Como professor que sou, tenho observado há algum tempo que é preciso uma disciplinarização nas salas de aulas no concernente ao uso abusivo de celulares, MP3, Ipods e afins”, escreveu o parlamentar, cuja atenção para o assunto foi chamada pela leitura de um texto do médico Manoel de Nóbrega, publicado na Folha de S. Paulo.

Para Gênio, o artigo, anexado aos ofícios, talvez seja o alerta que faltava, “o subsídio que precisávamos para colocar determinado tema no rol de nossas preocupações, não só quanto à saúde dos escolares, mas também no tocante à desatenção que tais aparelhos causam no desenrolar das aulas”.

O vereador avisa que ainda não passa por sua cabeça um instrumento proibitivo nesse sentido, “mas talvez, e inicialmente, caso a ‘categoria’ concorde, algo como uma campanha educativa em nossas escolas deve ser feito”.

Ao final de seu texto, Gênio colocou-se à disposição das pastas da Educação para discussões e tomadas de decisões que o caso venha a requerer. “Como sabemos, solucionar um ‘problema’ no início poderá ser melhor que depois de sua enraização no cotidiano das pessoas”, declarou.

 

 

Francisco Cabral

Assessoria de Imprensa

Câmara Municipal de Jataí

 

 

 

CONFIRA A ÍNTEGRA DO ARTIGO

DE MANOEL DA NÓBREGA

 

Filhos que não darão ouvidos aos pais

 

A Organização Mundial da Saúde estima que 42 milhões de pessoas acima de três anos de idade são portadoras de algum tipo de deficiência auditiva, de moderada a profunda. Ainda segundo números da OMS (1994) e do Censo 2000 realizado pelo IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a deficiência auditiva no Brasil ocupa o terceiro lugar entre todas as deficiências do país, representando 16,7% do total da população que tem algum tipo de deficiência.

Esse dado chama a atenção se considerarmos que ele representa 3% da população do país. Mas ele se torna alarmante por sabermos que é possível identificar o risco de deficiência auditiva em um bebê quando ainda está no útero da mãe. Ademais, existem meios de tratar a deficiência com sucesso se for diagnosticada precocemente e se o trabalho de reabilitação iniciar-se antes dos seis meses.

Desde 1998, as maternidades mantidas pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) realizam a triagem auditiva em todos os recém-nascidos, com indicadores de risco ou não, para que o diagnóstico precoce desencadeie todo o processo de reabilitação. Mesmo assim, a surdez infantil é um problema que atinge de 3 a 5 crianças em cada 1.000 nascidas no país – e grande parte dos casos chega aos consultórios pediátricos depois do terceiro ano de idade, segundo a Sociedade Brasileira de Otologia, dificultando o tratamento.

Mas além das barreiras sociais e culturais para a prevenção dos problemas auditivos, o mundo moderno nos presenteia com o agravante da surdez induzida pelo ruído, sendo que os causadores de perdas auditivas mais comuns estão no nosso dia-a-dia, como a máquina de cortar grama, ou em momentos de celebração, como o estouro de foguetes ou a música tocada em volume alto.

As consequências dos novos hábitos, em especial nas crianças, serão foco de uma conferência durante a 66ª edição do curso Nestlé de Atualização em Pediatria, que reunirá, em São Paulo, no mês de março, pediatras do país inteiro em busca de qualificação e conhecimento.

A exposição a sons ou a barulhos acima dos limites de tolerância pode lesar a orelha interna – as células da cóclea – e causar uma surdez irreversível. De acordo com a OMS, 10% da população mundial tem algum tipo de deficiência auditiva. A OMS considera que a perda auditiva relacionada ao ruído musical é a segunda maior causa de surdez no mundo.

Uma pesquisa encomendada pelo governo australiano descobriu que 25% dos usuários frequentes de MP3 estão mais expostos a perdas de audição. Outra pesquisa, inglesa, identificou que jovens de 18 a 24 anos estão mais suscetíveis que os adultos a exceder o limite de volume ideal.

O Centro de Medicina da Universidade do Minnesota, nos Estados Unidos, desenvolveu um estudo sobre os efeitos do som dos shows de rock no aparelho auditivo e recomendou o uso de protetores auriculares – não só para crianças mas também para a família inteira. Em tempos de Carnaval, essa parece ser uma boa ideia.

Os adeptos de celulares, iPods e MP3 que os utilizam por várias horas enquanto desenvolvem outra atividade estão expostos à restrição do foco de alerta e atenção. Consequentemente, apresentam maior risco de se envolver ou produzir acidentes, como atropelamentos ou a não-audição de uma sirene de incêndio.

Em Nova York, por exemplo, desde 2007 atravessar a rua ouvindo iPod pode render uma multa de US$ 100.

O que pode parecer raro ou exagerado torna-se rotineiro e crucial em países como Israel, quando se trata de sirenes de foguetes, por exemplo.

Outro aspecto extremamente relevante e ainda pouco valorizado é que o uso descontrolado de fones de ouvido reduz o convívio social e familiar da criança em uma fase crucial para a construção e o fortalecimento da sua personalidade e da sua autoestima.

Uma escola de Sydney, na Austrália, proibiu o uso de MP3 alegando que o acessório leva ao isolamento dos alunos. Por uma visão pessimista – ou, quem sabe, realista –, poderíamos enxergar esse cenário como a segunda chance ou a tentativa de nossas crianças deixarem de escutar. Depois os pais não poderão reclamar de que seus filhos não lhe dão ouvidos.

MANOEL DE NÓBREGA, 46, médico especialista em otorrinolaringologia, mestre e doutor pela Universidade Federal de São Paulo, é professor afiliado do Departamento de Otorrinolaringologia da Unifesp. É responsável pelo Ambulatório de Deficiência Auditiva da Disciplina de Otorrinolaringologia Pediátrica da Unifesp/EPM